Morte e vida das grandes pocilgas

Nessa terça-feira tive oportunidade de conhecer A Verdade. Afinal, fiquei muito tempo intrigado sobre a razão do declínio evidente do Bambus na relevância da vida intelectual nessa província. Eis que hoje ao sair da peça O Mapa (por sinal: VEJAM, é muito diferente das peças normais), fui conduzido a um local nos altos da escadaria/viaduto da Borges, cujo nome era Cartunistas. A única referência que eu tinha havia sido dada por um dos atores, que disse que o lugar era uma POCILGA.

O que se pode esperar de um bar terça à noite no centrão? Estava lotado! E logo tratei de averiguar a razão daquele local ser ponto de encontro. O atendimento único, feito por castelhanos, variedade de cervejas, geladeiras caseiras, decoração sou-cult-mas-disfarço, copos clássicos, mesinhas de madeira, aliados ao fato de estar em um dos cartões postais de Porto Alegre, fez o lugar ser frequentado pela nata: pessoal do teatro, universitários meio-intelectuais, meio-de-esquerda, pós-universitários etc. Não me surpreenderia se até o Otto Guerra trocasse o van Gogh pela pocilga.

Aliás, sobre o nome, não consegui encontrar referência do por que Cartunistas. Não vi escrito em lugar algum. O nome pode ser aleatório somente para encurtar a referência de dizer “aquele bar em cima das escadarias da Borges”.

É sempre bom termos novidades na cidade, mas no frigir dos ovos, todo mundo sabe: Bambus é eterno e em breve voltará.

A Chegada

Após 15 horas de check-ins, noite mal dormida em poltronas desconfortáveis, abre-e-fecha mochila e passagens por detectores de metal, cheguei. Moído, mas cheguei. A única coisa que eu queria era arranjar um espacinho pra dormir, porque não aguentava aquele cansaço. Tamanho era ele, que tanto fazia se eu estava no Porto, em Porto Alegre ou Porto Velho. A sorte era que eu tinha um head-quarter já esquematizado pra descansar antes de conhecer o lugar que eu ia morar.
Instalado em uma casa cheirando a velha, mas pitoresca por seu estilo, com a experiência de quem nunca tinha vivido em grupo, mal consegui dormir na primeira noite, ansioso. Afinal, 10 horas da manhã seria minha reunião na Reitoria, pra dar entrada na Universidade, e eu nem despertador tinha. E se eu perdesse a reunião? Ia perder a viagem? Preocupações à parte, havia ainda o fatídico galo. Sim, eu tive um vizinho que criava galinhas e um galo que, especialmente naquela noite, cacarejava (o galo, não o vizinho) como quem desse boas-vindas aos estrangeiros que ali se estabeleciam.
Na manhã seguinte, ainda cansado por duas noites mal dormidas, mas desperto e atento pela situação em que eu me encontrava – afinal, ficar sonolento em um novo país, não faz muito meu tipo – peguei o tal do metro (saberia eu mais tarde, que andei de graça) e desci num cenário de outro mundo, literalmente. Ao subir as escadas para fora da estação São Bento, me senti em algo como uma moldura de quadro ou num cenário de filme que mereceria o prêmio de melhor fotografia disparado. E caminhei rumo ao àquilo que seria minha vida nos próximos seis meses (cinco e meio, na verdade).
Nesse segundo dia, me senti totalmente turista. Caminhei, na companhia de um gajo de Santa Maria, por toda a zona central da cidade. Debaixo de um céu azul, desbravamos alguns dos pontos pelos quais eu nunca passaria, não fosse a vontade de conhecer TUDO. Naquela noite dormi com galo e tudo, mas sem compromissos pela manhã, o que já me aliviava bastante.
No terceiro dia, eu ainda cansado, aprendi o significado do tal do “jet lag”: o fuso horário me fazia dormir às 20 horas.
Apesar de estar ali, era difícil crer que eu realmente estava onde estava. Afinal, a rua era rua, o asfalto era asfalto, as casas eram casas, até a língua era português! E eu podia pedir “cacetinho” pro português da padaria, sem remorso algum. Não era como eu imaginava, afinal cadê as sensações alucinógenas, aquele êxtase que eu esperava encontrar ao pisar no Velho Mundo? Entretanto, caminhando pela primeira vez rumo à Faculdade, passando por uns atalhos que eu já havia identificado no Google Earth, algo bem lá no fundo me dizia que, sim, eu estava na Europa. Não sei bem identificar o que. Abri um sorriso no rosto e prometi a mim fazer valer a pena aquele tempo que eu estaria lá.

Terra à vista!

Amanhã completa 1 mês desde a minha chegada ao lado de cá do oceano. E passou muito rápido. Resolvi, através dessa data, fazer uma reflexão sobre o que vi até aqui, as diferenças e tal.

O Porto é uma cidade universitária por excelência. E com muitos intercambistas da Europa e, principalmente, do Brasil. Conversando com um pessoal de fora (alemães, eslovenos etc), o pessoal vem para cá pois aqui tudo é mais alegre, pessoas mais abertas, mais simpáticas e acolhedoras. Interessante ouvir isso, pois é o mesmo que falam do Brasil. Mas quanto aos intercambistas, nas noites por aí é normal ouvir pessoas falando em inglês, alemão, francês, ou alguma língua indecifrável. E a noite se faz na rua, até umas 4h da madrugada, quando as pessoas ou vão para casa (de ônibus) ou entram em alguma discoteca.

A cidade sofreu transformação recentemente no âmbito do transporte, onde autocarro (ônibus), metro (metrô) e eléctricos (bondinhos!) estão interligados pelo mesmo bilhete, chamado Andante. Em uma situação normal, ao pegar um transporte, a pessoa tem 1 hora para usar quantas vezes precisar o bilhete, fazendo transbordo onde quiser. E o metro é baseado na confiança, não havendo catracas ou roletas por onde passar, só uma máquina para “validar” o bilhete, na entrada da estação. É uma cultura certamente diferente da nossa, mas com uma interligação invejável entre os transportes, funcionando muito bem.

Além disso, todas as paragens de autocarro (por mais chinelonas que sejam) sempre tem uma placa dizendo as linhas que por ali passam e um quadro com os respectivos itinerários e horários que passam por ali! Põe organização! Mas nos horários mais de pico pode chegar a atrasar pra caralho. Mas melhor do que nada. E invejem, o TRI daqui é 11 euros para estudante abaixo de 23 anos e com passagens ilimitadas!

No âmbito da separação de lixo, em todas as quadras há pelo menos segregação entre vidro e o resto, quando não Metal, Vidro, Plástico e “Lixo”, com recipientes nas ruas, numa vaga de estacionamento. Acho que estão querendo fazer algo parecido em Porto Alegre, pelo menos no âmbito do reciclável e não-reciclável.

Na reforma ortográfica, os portugueses saíram perdendo muito. Estão caindo muitas letras de palavras (como baptismo ou actividade) enquanto no Brasil basicamente estamos tirando alguns acentos. Uma curiosidade interessante é que o nossa trema no ü não existe por aqui, foi provavelmente uma influência dos imigrantes alemães.

É mentira essa história de que aqui não tem banana e feijão. Ainda que sejam diferentes, quebra um galho! Por sinal, no RU daqui temos 4 opções de prato (dieta, vegetariano, carne ou peixe) e consiste sempre de uma sopa como entrada e tem o famoso sucão (que ainda que não seja de pozinho, é beeeeeeem aguado). Como na sopa não vem quase nenhum sólido acabo colocando o arroz na sopa, fazendo quase que uma canja. Mas em geral a comida é boa e custa 2,15 euros. O que deixa a desejar é a quantidade, já que é prato feito. De resto nas comidas, salsicha só em lata; arroz no máximo 1kg; 5L de água 0,31 euros (mais barato que no Brasil); os supermercados são bem pequenos (não passam de mercados), pra achar algo mais completo é um parto!

A princípio, essas foram as características mais marcantes da vida lusitana. Resta agora contar das primeiras viagens que fiz: Guimarães e Lisboa. Mas isso fica pra próxima!

Guia Turístico

Alguns de nós já passaram pela situação de ter que mostrar a cidade a amigos de outros pagos. Ao recebê-los por esta querência, surgem dúvidas do melhor roteiro a seguir. É claro que isso varia com o perfil do cidadão, mas vamos pelo padrão ao estilo guia de viagem, agradando gregos e/ou troianos. Nunca cheguei a ler um guia turístico ou panfleto que seja sobre Porto Alegre para saber como é vendida nossa imagem lá fora. Entretanto li uma frase sobre a cidade de Sevilha, na Espanha, que deve servir para a nossa realidade, algo como: “Em Sevilha você não precisa se preocupar em ter que visitar museus e igrejas, mas somente relaxar e sentir o ritmo da cidade”. Arrisco dizer que em Porto Alegre, temos a mesma situação, pois não são os monumentos e muito menos as igrejas que fazem a graça da cidade e sim a vivência. Enrolado está, que arrisco-me a listar algumas das atrações portoalegrenses. Podem sugerir e criticar à vontade.

  • – Ir em uma churrascaria e comer uma bela duma picanha. De preferência em um CTG, aí já quebra o galho de conhecer as danças gaúchas (fandango).
  • - Passeio pelo Centro Histórico. Para quem não sabe, desde o ano passado o Centro ganhou o complemento temporal, com fins turísticos. O ideal seria pegar um dia inspirado do Viva o Centro a Pé e passear pela Praça da Matriz, Praça da Alfândega, Rua da Praia e Mercado Público, vendo seus prédios/palácios.
  • - Passar uma manhã no Brique da Redenção. À tarde, dirigir-se para a Usina do Gasômetro e tomar um passeio de barco pelas águas do Guaíba.
  • - Fazer uma noite na Cidade Baixa, conhecendo o pico dos portoalegrenses.
  • - Jantar no bairro Moinhos de Vento, experienciando a gastronomia diversificada da cidade.
  • - Pegar a Linha Turismo zona Sul.
  • - Sair de manhã e ir conhecer Gramado, podendo voltar à noite.

Preparação Emocional

Tem certos eventos que são tão inspiradores que se tu sentares na frente da tv e acompanhares alguns jogos, já vais te sentir no lugar, com o espírito daquela competição. Para mim, esse é o caso do torneio de tênis de Roland Garros e o campeonato mundial de futebol (aka Copa do Mundo). São dois torneios que eu vejo até joguinho furreca, de tão legal que é a atmosfera do lugar. Por sinal, quase sempre perco os jogos bons… pequeno detalhe. E é por acompanhar de perto, que uma característica me saltou aos olhos. Tanto na Copa do Mundo, quanto em Roland Garros muita gente perde a partida não por questões técnicas, táticas ou físicas, mas por questões psicológicas, emocionais. Certamente que isso acontece em quase todos os esportes, mas esses dois acompanho “de perto”.
Foi o caso do Brasil que tomou o gol de empate e se desesperou. Foi o caso do Uruguai, que ao levar o segundo gol, descontrolou-se e tomou o terceiro (embora tenha se recuperado logo em seguida – o que não foi o caso do Brasil). Além disso, não são raras as vezes que um tenista tem o match point a seu favor, perde, e acaba perdendo a partida.
Acompanhando esses esportes me parece que falta uma maior preparação para os atletas, que deve focar não só no físico e na técnica, mas na cabeça. É isso que dizem quando um jogador é “experiente”: sabe controlar sua emoção em horas decisivas. Por que não investir nisso desde o início?

Comida Rootz

Dia desses, estava passando pelo centro na hora do almoço. Forcei a mente, pois sabia que havia algum restaurante interessante por ali que queria provar. Lembrei: Telúrico. A situação toda já começa pelo nome: telúrico, referente à Terra. E logo de entrada, o vivente que se aprochega já percebe, é comida que vem da terra.
Telúrico, no segundo andar do Mercado Público, é (ou deve ser) o mais conhecido restaurante vegano de Porto Alegre. Sim, vegano: sem carne, sem ovos, sem leite, sem queijo. Alguém mais sabido então diria: então não tem como ser bom. Mas até que tem. Gosto é gosto, afinal.
Entrando, vê-se o cartaz que diz buffet 12 reais e um buffet miúdo à frente. No dia que fui, tinham 4 tipos de sopas, buffet de saladas e alguns pratos veganos. Dentre os pratos veganos, me apaixonei por um bolinho de banana que havia, feito com massa integral. Prontamente lembrei-me da vez que fui até um sítio de permacultura participar da confecção de pães integrais orgânicos. Por sinal, o pão que acompanhava a sopa era igual, mas com um gosto muito melhor do que o que tínhamos feito a primeira vez.
Com o bucho cheio e 12 reais a menos, saí com a certeza de comida vegana não é para mim. Há algum tempo venho frequentando pontualmente alguns restaurantes vegetarianos. Os melhores para mim são os orientais, que tem uma criatividade interessante em seus pratos com legumes. Além de sempre poder recorrer ao tradicional yakisoba. A culinária normal vegetariana, vide restaurantes como Flor de Maçã ou Vida e Saúde (que por sinal, sempre achei que fosse um programa da RBSTV) não me apetecem. Prato Verde é outro que não se mostrou com um custo benefício muito bom, já que são servidas basicamente mil tipos de saladas.
Entretanto, como bom oriental que é, ainda que seja indiano, o Suprem encontra-se no topo da minha lista de preferidos, se é para não comer carne. Comidas diferentes e com sabores diferentes. De comer lá algumas vezes, tenho até adicionado gengibre e curry nos almoços em casa.

La Castelli

Todos nós temos algum restaurante meio pé sujo no qual nos aconchegamos e curtimos uma boa comidinha.
Nos meus tempos de colégio, quando havia turno inverso, eu almoçava algumas vezes fora de casa. Minha casa ficava a umas 5 quadras subindo, o suficiente para a preguiça bater mais alto de vez em quando e almoçar com os colegas ali pelo bairro. Havia (e ainda há) um restaurante que carinhosamente apelidamos de “Sujo”. Ao que eu sei, o nome veio após encontrarem alguns talheres mal lavados. Também contribuiu o fato de o nome do estabelecimento não estar escrito em lugar algum, sendo essa denominação como a única possível de se referir perfeitamente ao lugar, com o entendimento de todos. A propósito, justiça seja feita, o lugar não era mais sujo do que qualquer restaurante de Buenos Aires.
Fato é que a grande atração do lugar era, além do preço (atualmente buffet livre + suco = R$8,00), a qualidade da comida. É daquelas comidinhas caseiras, que são feitas em médias porções, contribuindo para o sabor ficar melhor, além de ter uma variedade boa. Lasanha com cara daquelas que a (mãe da) gente faz em casa, sabe? Mas o que me levou a escrever esse texto foi a lembrança da panqueca doce que está sempre presente no buffet. Se houvesse uma eleição de melhor panqueca da cidade, seria aquela, sem sombra de dúvidas. Que Panquecaria do Alemão o quê. Banana, canela e leite condensado, simples. Entretanto, como eu disse, são porções médias, ou seja: tão rápido quanto chega, a panqueca vai embora. É uma correria entre os frequentadores da casa para pegar uma (ou duas, né) panquecas daquelas.
Entre tantos buffets livres que se encontra por aí com 50 tipos de pratos, 70 tipos de saladas, vale a pena encontrar um que junte preço acessível, poucos e bons pratos feitos com qualidade, sem erro. E com uma panqueca de banana que dispensa qualquer sobremesa a mais.

Buffet La Castelli
Rua 24 de Outubro, do lado do CFC, em frente à Igreja Auxiliadora
R$8,00 buffet livre com suco durante a semana
R$9,00 sábados (sem suco)