Dias 18 e 19 de Maio tive a oportunidade de acompanhar a evolução de um tema que está em escalada no verbo dos cientistas do mundo (ainda que não tenha a mesma repercussão na mídia): o efeito biológico das radiações não-ionizantes. Tema esse muito controverso, chegando a talvez comparar-se àquela história da participação do homem nas mudanças climáticas, com a diferença de que talvez as radiações possam nos afetar mais diretamente.
Primeiro, para esclarecer, por radiações não-ionizantes entenda-se a ação de campos eletromagnéticos (EMF, eletromagnetic field) gerados, por exemplo, por rádio, televisão – EMFs de baixa instensidade -, celular, torre rádio-base de celular e linha de transmissão – EMFs de alta intensidade. Essas radiações, principalmente provindas de EMFs de alta intensidade, têm sido colocadas em xeque pela ciência da saúde. Gerada a controvérsia, tem-se a dizer ainda que o dinheiro da indústria é influente o suficiente para deixar qualquer tecnologia acima de todas as suspeitas. QUe fazer?
Cientisas de várias países reuniram-se no bonito prédio do Ministério Público Estadual para discutir acerca da questão. Estive eu lá, e, para minha felicidade, cheguei bem na hora do “coffee break”: pães de queijo e bolacha até enfartar. Após, começaram as palestras técnicas. O Dr. Lívio Giuliano começou falando de um tal de Zhadin Effect. Como bom italiano que era, gesticulava bastante. E com seu inglês macarrônico, nem o tradutor conseguiu se acertar muito bem. Martin Blank, da Columbia University, por sua vez escandalizou as senhoras de respeito ao afirmar que o EMF estaria relacionado ao desenvolvimento de câncer, através de interferências no DNA. Engraçado notar que as mesmas senhoras saíam toda hora para falar no celular (celular=EMF).
(Pausa para um adendo: quando se acha que com a velhice vem maior respeito, não se pode estar mais enganado. Gente conversando e celulares tocando eram coisas freqüentes no auditório.)
Leif Salford apresentou sua pesquisa com ratos expostos a sinais GSM (sim, aquele do celular) e constatou que formaram-se bolinhas roxas nos cérebros de suas cobaias. Era um vazamento de albumina que aumentava de acordo com o nível de exposição à radiação. Entre muitos outros cientistas que seguiram tentando comprovar sua tese, Raymond Neutra enveredou a discussão para um lado totalmente diferente. Falando de comportamento, ética, Katnt, entre outros, deu sua contribuição – não científica, mas lógica – do porque adotar o Princípio da Precaução.
O Princípio da Precaução se refere não a fatos comprovados, mas a incertezas. Adotar medidas que nos protejam mesmo antes de pesquisas chegarem a um consenso. Com essa conversa, lembrei-me prontamente da minha professora de Ecotoxicologia que falava sobre a indústria química criar milhares de produtos a mais do que a toxicologia conseguia testar sua toxicidade aos humanas. Usamos coisas, afinal, que não sabemos que efeitos podem ter sobre nossa saúde. No caso das EMF, desde os anos 70 alguns cientistas clamam pelo princípio da precaução.
Há lugares que já adotam certo de nível de precaução, conforme citou Devra Davis, especialista do Insituto de Câncer da Universidade de Pittsburg. Cidades como Lyon, na França, já tentam proteger suas crianças. Há campanhas do tipo “não dê a seu filho celulares”, pois reconhecidamente o público infantil é o mais fácil de dobrar para se utilizar badulaques eletrônicos. Mas Devra jogou sujo, atacando os sentimentos paternos/maternos dos ali presentes incitando um semi-ódio aos celulares e apelando pela saúde das crianças. Quase a confundi com um jornalista, mas logo me dei conta que ela era expert em sua área (oncologia ambiental) e possivelmente sabia do estava falando.
E assim seguiu-se o seminário, ninguém tendo provas irrefutáveis, permanecendo a discussão e as dúvidas. Fato é que, se há algo errado com nossas tecnologias, a ação deve vir logo com medidas preventivas, de baixo custo, e investimentos pesados em P&D que diminuam os possíveis efeitos das radiações não-ionizantes.