Após 15 horas de check-ins, noite mal dormida em poltronas desconfortáveis, abre-e-fecha mochila e passagens por detectores de metal, cheguei. Moído, mas cheguei. A única coisa que eu queria era arranjar um espacinho pra dormir, porque não aguentava aquele cansaço. Tamanho era ele, que tanto fazia se eu estava no Porto, em Porto Alegre ou Porto Velho. A sorte era que eu tinha um head-quarter já esquematizado pra descansar antes de conhecer o lugar que eu ia morar.
Instalado em uma casa cheirando a velha, mas pitoresca por seu estilo, com a experiência de quem nunca tinha vivido em grupo, mal consegui dormir na primeira noite, ansioso. Afinal, 10 horas da manhã seria minha reunião na Reitoria, pra dar entrada na Universidade, e eu nem despertador tinha. E se eu perdesse a reunião? Ia perder a viagem? Preocupações à parte, havia ainda o fatídico galo. Sim, eu tive um vizinho que criava galinhas e um galo que, especialmente naquela noite, cacarejava (o galo, não o vizinho) como quem desse boas-vindas aos estrangeiros que ali se estabeleciam.
Na manhã seguinte, ainda cansado por duas noites mal dormidas, mas desperto e atento pela situação em que eu me encontrava – afinal, ficar sonolento em um novo país, não faz muito meu tipo – peguei o tal do metro (saberia eu mais tarde, que andei de graça) e desci num cenário de outro mundo, literalmente. Ao subir as escadas para fora da estação São Bento, me senti em algo como uma moldura de quadro ou num cenário de filme que mereceria o prêmio de melhor fotografia disparado. E caminhei rumo ao àquilo que seria minha vida nos próximos seis meses (cinco e meio, na verdade).
Nesse segundo dia, me senti totalmente turista. Caminhei, na companhia de um gajo de Santa Maria, por toda a zona central da cidade. Debaixo de um céu azul, desbravamos alguns dos pontos pelos quais eu nunca passaria, não fosse a vontade de conhecer TUDO. Naquela noite dormi com galo e tudo, mas sem compromissos pela manhã, o que já me aliviava bastante.
No terceiro dia, eu ainda cansado, aprendi o significado do tal do “jet lag”: o fuso horário me fazia dormir às 20 horas.
Apesar de estar ali, era difícil crer que eu realmente estava onde estava. Afinal, a rua era rua, o asfalto era asfalto, as casas eram casas, até a língua era português! E eu podia pedir “cacetinho” pro português da padaria, sem remorso algum. Não era como eu imaginava, afinal cadê as sensações alucinógenas, aquele êxtase que eu esperava encontrar ao pisar no Velho Mundo? Entretanto, caminhando pela primeira vez rumo à Faculdade, passando por uns atalhos que eu já havia identificado no Google Earth, algo bem lá no fundo me dizia que, sim, eu estava na Europa. Não sei bem identificar o que. Abri um sorriso no rosto e prometi a mim fazer valer a pena aquele tempo que eu estaria lá.
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