Novamente no além-mar

Pensei em mudar o título do blog de volta para Imitation of Life, antigo título, pois acreditar que Somewhere over the sea já não se aplicava. Eis que me dei conta de que o “mar” poderia ser representado por qualquer coisa – o rio Mampituba, um pedaço de terra, qualquer coisa. Afinal, estou fora de Porto Alegre novamente. Ainda brincando com o “mar”, Belo Horizonte, onde resido atualmente, é a cidade que dizem “já que não tem mar, vai pro bar”. Vim parar aqui em setembro de 2014, por ocasião de um concurso público.
É até interessante ver que, nas minhas divagações de 2013 e mesmo de 2014 – num caderninho que comprei – as dúvidas sobre o futuro e o que fazer pós faculdade me trouxeram até aqui: um lugar onde posso trabalhar e fazer pós graduação ao mesmo tempo. Com isso, deixei o namoro, amigos e família para trás. Aliás, faz 1 mês que terminamos o namoro. Desde que cheguei nessa cidade, não consegui abrir o peito para as possibilidades e oportunidades que aqui possam surgir. Ainda estou fechado. Não é como estar em outra cidade, em um intercâmbio. Definitivamente, não. E interessante que esse fechamento ocorre principalmente de minha parte.
Saí de Porto Alegre sem o desejo completo de quem estava indo para um lugar onde gostaria de estar. Afinal, estava gostando da minha vida lá. Tenho isso para mim como o motivo principal de ainda não ter aderido a uma vida belorizontina – só aderi ao pão de queijo até o momento. Só que isso já passou, estou aqui, e é tempo de aproveitar. Senão, quando/se eu voltar para Porto Alegre, vou me arrepender daquele tempo em que estive em Belo Horizonte e não fiz nada que prestasse.
Acorda!

Det Sjunde Inseglet

Revisitar o blog é revisitar o passado. Alguns questionamentos, algumas ânsias. Esses dias, por acaso, acabei assistindo outro Bergman: O Sétimo Selo. Sublime. É praticamente existencial, pois trata de vida e morte, Deus ou ateísmo. Como é permeado por questões atemporais, sempre será atual. A chegada da peste e aqueles que buscam a salvação de Deus através da penitência. A morte sempre à espreita. Um jogo com a morte. Muitas dúvidas, ninguém para responder.
Já tive uma fase mais pensativa sobre o caso, creio que nos meus 18 anos – 2006. Na época comprei o livro Intermitências da Morte, de José Saramago, para tentar lidar melhor com isso. Depois da leitura os pensamentos arrefeceram. Saramago me consolou. A morte é não só inevitável, como desejada. Mas para os outros, nunca para os nossos.
Mesmo se Jöns e Antonius tivessem lido Saramago, não estariam tranquilos. Para além do sentido da morte, buscavam o sentido da vida. Ironicamente, Antonius ao jogar xadrez com a Morte esperava dela respostas sobre a vida. Infelizmente, a Morte não portava resposta alguma.
Para além das questões do filme, certamente fiquei prestando atenção no idioma, que aos poucos se esvai da minha memória. Próximos filmes a ver serão, creio, “Persona” e “Fanny och Alexander”. Ainda ano passado – acho! – vi “Vi är bäst”, Nós Somos as Melhores. Bateu uma saudade, principalmente por aparecerem mais cenas de Estocolmo.

Smultronstället

Hoje aprovetei a chance de ver (finalmente) o filme Morangos Silvestres, lá na FABICO no projeto (muito legal) “Sonhos: Cinema e Psicanalise”. O filme, de Ingmar Bergman, chama-se no original Smultronstället. Portanto, eu já sabia o que me esperava e qual seria uma das minhas reações ao filme: no mínimo nostalgia. Dito e feito.
Confesso que demorei a prestar atenção no filme em si, pois fiquei saboreando com o ouvido o idioma que já me foi bastate familiar há 5 meses. Em cada frase tentava entender uma, duas, três palavras, às vezes a frase inteira (quando simplória). Com o passar do tempo, entretanto, fui sendo absorvido pela história. E aí vinham alguns arrepios que não sei se foi por causa do filme em si, ou do ar condicionado. É basicamente a história de um cara rabugento que vê sua vida passando pelos sonhos e olhos (conforme viaja de Estocolmo para Lund) e revê algumas de suas atitudes no presente. Creio que há diversas interpretações ultra-cults para o filme, mas dessa vez dei-me o direito de ignorar tudo para curtir minha nostalgia.
Ainda assim, achei-o interessante do ponto de vista pessoal, pois as pequenas histórias que vão aparecendo são interessantes e muitas vezes fizeram-me refletir sobre mim. Discordo portanto diametralmente da crítica negativa da Veja, de 08/07/1998:
“Morangos Silvestres é um filme adorado por uma minoria e estoicamente engolido pela imensa maioria que viu e não gostou. Esses que não gostaram escondem essa verdade simples dos outros que também não gostaram e, no fim, ninguém fica sabendo qual a real opinião das pessoas a respeito de Morangos Silvestres. Acontece que o complicado filme sueco pertence a um grupo específico: o dos ‘filmes que você diz que gosta mas não consegue assistir até o fim'”.
Discordo pois o filme, mesmo em sua casca superficial, é envolvente. Contudo, possivelmente quem não está habituado a filmes em preto-e-branco, pode ter impressões prejudicadas.

Faculdade e suas questões

Após um longo período parado, tive novamente vontade de usar esse espaço para jogar alguns pensamentos.

Desde a última vez que postei no blog, houve mais uma viagem, com destino um tanto inusitado: Suécia. E, se a primeira delas (Portugal) teve como conclusão identificar muitas semelhanças entre a cultura portuguesa e brasileira, desta vez o significado maior foi reconhecer diferenças entre o meu mundo e o mundo lá fora.

Das diferenças, uma das que dou mais destaque nesse momento é a diferença na cultura educacional. A experiência com esse intercâmbio acadêmico, aliada aos (já!) 8 anos dentro de uma Universidade, me levam atualmente a uma fadiga com as aulas na UFRGS. Encontro-me saturado do comum lero-lero que são as aulas da minha faculdade. Em contrapartida, na Suécia, tive aulas em que os professores reconheciam que o aluno tem um limite de concentração e que davam pausa a cada 50 min; em que as aulas eram focadas em aspectos fundamentais e em aplicações práticas, e não em amontoar conteúdo; enfim, tive aulas que os alunos ainda estavam com vontade de aprender e não em serem aprovados na prova. Era uma filosofia (sueca) e um contexto (primeiro semestre do curso de mestrado) que proporcionava isso. Não que tudo era bom lá e tudo seja ruim aqui – longe disso: há certamente exemplos opostos. Mas voltei. Voltei e esse semestre o nível das aulas é sofrível – o que é identificado não só por quem já estudou fora, mas também por quem ficou.

Como reflexo disso, minha cabeça viaja por outros assuntos. Penso em seminários, artigos, ciclos, mostras, em tudo que há para fazer em nossa universidade e cidade; penso em jeito diferentes que as aulas poderiam ser dadas; penso no que fazer depois de formado (trabalho/especialização/mestrado). Por um lado excitante, por outro angustiante ao perceber que tudo isso decorre da falta de motivação pelas aulas. Talvez, entretanto, seja algo normal dado meus oito anos de universidade; talvez, não.

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Uma das minhas reflexões ultimamente é em relação a que fazer depois de formado. Já indaguei vários colegas a respeito, alguns mais constrangidos por ter que decidir isso até o fim do semestre, outros mais de sangue doce. Raros sabem. Tenho pensado em ser professor universitário, mas para isso teria que fazer mestrado e doutorado, ou seja, enfrentar mais 6 anos. Penso que hoje o mestrado no Brasil é um lero-lero a mais, uma formalidade desnecessária, após ter visto muita dissertação que mal eu consideraria um trabalho de graduação. Na Europa, eles já decretaram que o mestrado era uma inutilidade e agruparam na graduação. Vale a pena enfrentar aulas com os mesmos professores de sempre, ou ir para outro lugar? Tentar um mestrado no exterior e pelear para conseguir a validação? Após isso, o doutorado. E aí rezar para abrir um concurso digno. Ou tentar conciliar pós-graduação com trabalho?

Morte e vida das grandes pocilgas

Nessa terça-feira tive oportunidade de conhecer A Verdade. Afinal, fiquei muito tempo intrigado sobre a razão do declínio evidente do Bambus na relevância da vida intelectual nessa província. Eis que hoje ao sair da peça O Mapa (por sinal: VEJAM, é muito diferente das peças normais), fui conduzido a um local nos altos da escadaria/viaduto da Borges, cujo nome era Cartunistas. A única referência que eu tinha havia sido dada por um dos atores, que disse que o lugar era uma POCILGA.

O que se pode esperar de um bar terça à noite no centrão? Estava lotado! E logo tratei de averiguar a razão daquele local ser ponto de encontro. O atendimento único, feito por castelhanos, variedade de cervejas, geladeiras caseiras, decoração sou-cult-mas-disfarço, copos clássicos, mesinhas de madeira, aliados ao fato de estar em um dos cartões postais de Porto Alegre, fez o lugar ser frequentado pela nata: pessoal do teatro, universitários meio-intelectuais, meio-de-esquerda, pós-universitários etc. Não me surpreenderia se até o Otto Guerra trocasse o van Gogh pela pocilga.

Aliás, sobre o nome, não consegui encontrar referência do por que Cartunistas. Não vi escrito em lugar algum. O nome pode ser aleatório somente para encurtar a referência de dizer “aquele bar em cima das escadarias da Borges”.

É sempre bom termos novidades na cidade, mas no frigir dos ovos, todo mundo sabe: Bambus é eterno e em breve voltará.

A Chegada

Após 15 horas de check-ins, noite mal dormida em poltronas desconfortáveis, abre-e-fecha mochila e passagens por detectores de metal, cheguei. Moído, mas cheguei. A única coisa que eu queria era arranjar um espacinho pra dormir, porque não aguentava aquele cansaço. Tamanho era ele, que tanto fazia se eu estava no Porto, em Porto Alegre ou Porto Velho. A sorte era que eu tinha um head-quarter já esquematizado pra descansar antes de conhecer o lugar que eu ia morar.
Instalado em uma casa cheirando a velha, mas pitoresca por seu estilo, com a experiência de quem nunca tinha vivido em grupo, mal consegui dormir na primeira noite, ansioso. Afinal, 10 horas da manhã seria minha reunião na Reitoria, pra dar entrada na Universidade, e eu nem despertador tinha. E se eu perdesse a reunião? Ia perder a viagem? Preocupações à parte, havia ainda o fatídico galo. Sim, eu tive um vizinho que criava galinhas e um galo que, especialmente naquela noite, cacarejava (o galo, não o vizinho) como quem desse boas-vindas aos estrangeiros que ali se estabeleciam.
Na manhã seguinte, ainda cansado por duas noites mal dormidas, mas desperto e atento pela situação em que eu me encontrava – afinal, ficar sonolento em um novo país, não faz muito meu tipo – peguei o tal do metro (saberia eu mais tarde, que andei de graça) e desci num cenário de outro mundo, literalmente. Ao subir as escadas para fora da estação São Bento, me senti em algo como uma moldura de quadro ou num cenário de filme que mereceria o prêmio de melhor fotografia disparado. E caminhei rumo ao àquilo que seria minha vida nos próximos seis meses (cinco e meio, na verdade).
Nesse segundo dia, me senti totalmente turista. Caminhei, na companhia de um gajo de Santa Maria, por toda a zona central da cidade. Debaixo de um céu azul, desbravamos alguns dos pontos pelos quais eu nunca passaria, não fosse a vontade de conhecer TUDO. Naquela noite dormi com galo e tudo, mas sem compromissos pela manhã, o que já me aliviava bastante.
No terceiro dia, eu ainda cansado, aprendi o significado do tal do “jet lag”: o fuso horário me fazia dormir às 20 horas.
Apesar de estar ali, era difícil crer que eu realmente estava onde estava. Afinal, a rua era rua, o asfalto era asfalto, as casas eram casas, até a língua era português! E eu podia pedir “cacetinho” pro português da padaria, sem remorso algum. Não era como eu imaginava, afinal cadê as sensações alucinógenas, aquele êxtase que eu esperava encontrar ao pisar no Velho Mundo? Entretanto, caminhando pela primeira vez rumo à Faculdade, passando por uns atalhos que eu já havia identificado no Google Earth, algo bem lá no fundo me dizia que, sim, eu estava na Europa. Não sei bem identificar o que. Abri um sorriso no rosto e prometi a mim fazer valer a pena aquele tempo que eu estaria lá.

Terra à vista!

Amanhã completa 1 mês desde a minha chegada ao lado de cá do oceano. E passou muito rápido. Resolvi, através dessa data, fazer uma reflexão sobre o que vi até aqui, as diferenças e tal.

O Porto é uma cidade universitária por excelência. E com muitos intercambistas da Europa e, principalmente, do Brasil. Conversando com um pessoal de fora (alemães, eslovenos etc), o pessoal vem para cá pois aqui tudo é mais alegre, pessoas mais abertas, mais simpáticas e acolhedoras. Interessante ouvir isso, pois é o mesmo que falam do Brasil. Mas quanto aos intercambistas, nas noites por aí é normal ouvir pessoas falando em inglês, alemão, francês, ou alguma língua indecifrável. E a noite se faz na rua, até umas 4h da madrugada, quando as pessoas ou vão para casa (de ônibus) ou entram em alguma discoteca.

A cidade sofreu transformação recentemente no âmbito do transporte, onde autocarro (ônibus), metro (metrô) e eléctricos (bondinhos!) estão interligados pelo mesmo bilhete, chamado Andante. Em uma situação normal, ao pegar um transporte, a pessoa tem 1 hora para usar quantas vezes precisar o bilhete, fazendo transbordo onde quiser. E o metro é baseado na confiança, não havendo catracas ou roletas por onde passar, só uma máquina para “validar” o bilhete, na entrada da estação. É uma cultura certamente diferente da nossa, mas com uma interligação invejável entre os transportes, funcionando muito bem.

Além disso, todas as paragens de autocarro (por mais chinelonas que sejam) sempre tem uma placa dizendo as linhas que por ali passam e um quadro com os respectivos itinerários e horários que passam por ali! Põe organização! Mas nos horários mais de pico pode chegar a atrasar pra caralho. Mas melhor do que nada. E invejem, o TRI daqui é 11 euros para estudante abaixo de 23 anos e com passagens ilimitadas!

No âmbito da separação de lixo, em todas as quadras há pelo menos segregação entre vidro e o resto, quando não Metal, Vidro, Plástico e “Lixo”, com recipientes nas ruas, numa vaga de estacionamento. Acho que estão querendo fazer algo parecido em Porto Alegre, pelo menos no âmbito do reciclável e não-reciclável.

Na reforma ortográfica, os portugueses saíram perdendo muito. Estão caindo muitas letras de palavras (como baptismo ou actividade) enquanto no Brasil basicamente estamos tirando alguns acentos. Uma curiosidade interessante é que o nossa trema no ü não existe por aqui, foi provavelmente uma influência dos imigrantes alemães.

É mentira essa história de que aqui não tem banana e feijão. Ainda que sejam diferentes, quebra um galho! Por sinal, no RU daqui temos 4 opções de prato (dieta, vegetariano, carne ou peixe) e consiste sempre de uma sopa como entrada e tem o famoso sucão (que ainda que não seja de pozinho, é beeeeeeem aguado). Como na sopa não vem quase nenhum sólido acabo colocando o arroz na sopa, fazendo quase que uma canja. Mas em geral a comida é boa e custa 2,15 euros. O que deixa a desejar é a quantidade, já que é prato feito. De resto nas comidas, salsicha só em lata; arroz no máximo 1kg; 5L de água 0,31 euros (mais barato que no Brasil); os supermercados são bem pequenos (não passam de mercados), pra achar algo mais completo é um parto!

A princípio, essas foram as características mais marcantes da vida lusitana. Resta agora contar das primeiras viagens que fiz: Guimarães e Lisboa. Mas isso fica pra próxima!