Um tipo de diário de bordo.

Véspera de Natal de 2007.

Acordo 6:15 da manhã. Um dia longo me espera. Assim como no filme Viagem a Darjeeling, estou prestes a embarcar em uma viagem espiritual. Assim como 2 dos 3 personagens principais do filme, eu não estava ciente disso até ser dada a partida.

Por 75 Pesos Argentinos, embarquei em direção à Cordilheira dos Andes, partindo da cidade argentina de Mendoza. Era uma excursão, eu não estava sozinho: algo como 4 ingleses, 4 chilenos, 2 suecos, 2 israelenses, 2 venezuelanos, uma argentina e um guia que só sabia falar espanhol e arranhava o português. Metade do ônibus não entendia o que ele dizia. Não importava, o objetivo era ter uma bela vista do monte Aconcágua (segundo pico mais alto do mundo) e logo após subir ao Monte Cristo Redentor, a 4.200 metros de altura, na divisa da Argentina com o Chile.

Durante o percurso, o guia ia falando, parecendo ter muita perícia no assunto, sobre o sistema fluvial de Mendoza e também sobre as formações geológicas da Cordilheira. A propósito, o sistema fluvial de Mendoza mereceria um texto à parte, pois é algo que apesar de simples, é bonito, prático e muito eficiente. Graças a ele, no meio do deserto conseguiu-se brotar uma cidade cheia de parques e com vinhedos tão famosos. Já sobre as formações rochosas da Cordilheira, não tenho nada a dizer. São, afinal, pedras.

Enfim, passado um tempo paramos e descemos. Estávamos a 2000 metros de altura. Olhei entre as montanhas, lá estava ele: imponente, coberto de gelo em pleno verão, o Aconcágua. Senti um arrepio, e não era por causa do vento frio que soprava. Devo dizer que basicamente 2 coisas me fascinam por demais: uma delas é estar perto desses monstros de pedra, a outra é voar. São coisas que mexem com os sentidos e me fazem perceber como somos frágeis e pequenos em relação ao mundo.

Seguindo através de inúmeros túneis e curvas, entre a chamada Pré-Cordilheira e a Cordilheira Frontal, chegamos ao Cerro Cristo Redentor. Encaramos uma subida íngreme, algo demorada, mas recompensadora. Passamos dos 3.000 aos 4.200 metros em alguns minutos para ver uma paisagem única que se apresentava para quem estava no topo. Havia um monumento com placas de tudo que é lugar (inclusive do MTG) e uma paisagem forjada ao longo de milhões de anos. Congelei, não apenas o frio, que já deixava claro que 4000 metros não eram de brincadeira, mas uma espécie de epifania tomou-me conta. Lugar perfeito para qualquer meditação, talvez com um agasalho melhor. Aquele podia ser tranqüilamente o lar de algum guru indiano que passasse a vida ali a ruminar a sabedoria. Fiquei fora da van o máximo tempo que podia pensando na vida e etcétera, já que o ambiente me convidava a fazer, antes de ceder ao frio.

Não passavam das 11 da manhã, a excursão ainda teria outras atrações, mas nada perto dessas sensações. Chegamos em um restaurante, almoçamos, troquei palavras com uma inglesa e dois chilenos. Às 17 horas da tarde eu estava de volta ao hotel, recuperado do frio, mas não da experiência.

Uma resposta para “Um tipo de diário de bordo.

  1. Cordilheira dos Andes deve ser fantástico. Tá na minha lista do ‘um dia eu vou’.

    Adoro ler relatos de viagem, e o modo como tu contou tua experiência me deixou com mais vontade ainda de ir. Pelo visto não “são, afinal, pedras” somente😉

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