O diálogo

Poucas vezes existem escândalos que balançam tanto um governo como o que está sendo discutido no estado do Rio Grande do Sul. A gravação que o vice-governador Feijó fez de uma conversa com o Chefe da Casa Civil Busatto, tornando-a pública dias depois, estremeceu as já fracas bases de Yeda. Aliado às investigações da CPI do DETRAN, é um grande material criminalístico a investigar.
Os pontos que despertaram mais a minha curiosidade se destacam em quatro, basicamente: a suposta falta de ética de Feijó, a suposta culpa de Busatto, o fato em si (o desvio de dinheiro) e a constitucionalidade da gravação.

A começar pelo primeiro: por que seria anti-ético denunciar irregularidades? Ainda mais do próprio governo! A questão vai além da denúncia e recai nas verdadeiras intenções (ainda desconhecidas) de Feijó ao cometer este ato. Seria ele um bom samaritano que denunciou em prol da lisura, da honestidade? Alguém determinado a mudar essa vergonha que vemos todos dias, com dinheiro sendo desviado até para cuecas alheias. É muito tentador pensar assim, e a princípio é o que pode parecer. Mas o que tem sinto mais levantado são intenções, que parecem ter mais precedência no contexto: a rivalidade de Feijó com Yeda que começou desde antes de iniciar o mandato de ambos. A propósito, Yeda talvez nunca tenha pensado que iria vencer a eleição , pois para colocar como vice uma pessoa totalmente avessa às idéias dela não tem outra explicação. Feijó teria, então, intenção de recorrer em um Impeachment da governadora e assumir seu lugar, somente visando o poder, em detrimento de sua confiabilidade como político entre outros colegas da classe. Isso explicaria o fato de ter se feito de salame durante a conversa.
Ainda relativo ao primeiro ponto, do ponto de vista de um possível código de ética. Independente de ter feito uma denúncia, o fato de gravar um diálogo privado e expôr é semelhante ao ato de revelar segredos. Quem revela um segredo, é tachado de anti-ético e nunca mais recebe a mesma confiança que recebia. Acredito porém que essa a parte menos relevante.

Da culpa de Busatto – dá quase um nome de filme. A conseqüência mais imediata após a divulgação do diálogo foi a saída de Busatto do governo. Responsabilizado como se fosse o mais culpado de todos, é um dos alvos da revolta popular. Porém, o fato de ele ser um dos protagonistas do diálogo não diz nada além de que ele sabia do fato, era um conivente: tanto quanto todos os outros membros do governo (assim como Feijó até aquele momento). Defensor de uma política pública sincera (publicando até um livro sobre o assunto), parece que não via aplicação de seu idealismo na prática, ao chegar em um governo de verdade e deparar-se com toda a estrutura de financiamento complexa já montada desde governos anteriores, que acaba esclarecendo em sua gravação. Ao contrário de Lula e Ciro Gomes, ele não pode afirmar que não sabia de nada. E é por todo mundo saber que ele sabe, que ele saiu do governo ontem. Enquanto isso, todos os outros que nós não temos certeza que sabem, mas provavelmente sabem, continuam lá hipórcritas.

E ouvi dizer que o PMDB iria processar o Busatto por fazer essas denúncias sem ter como provar, algo que me intrigou demais. Nunca engoli muito bem esse papo de “falou, vai ter que provar”, até porque de fato não era a intenção do Chefe da casa Civil fazer a denúncia pulicamente. Mas se a regra fosse seguida desse modo, todos nós já estaríamos presos há muito tempo por chamarmos nossos políticos de corruptos, enquanto “nenhuma irregularidade é comprovada” judicialmente. E essa a questão da constitucionalidade que eu gostaria de levantar. A coluna do Paulo Sant’Ana de hoje fala muito bem, dando um enfoque um pouco diferente, mas igualmente interessante sobre o assunto.

Sendo assim, no conjunto da obra, ocorre que o desvio de dinheiro de empresas públicas para financiamento de partidos segue, aparentemente, como uma prática comum de governo, embora governadores anteriores digam que não (grande novidade). Na falta de leis eleitorais que eliminem essa prática, o máximo que os partidos podem fazer é usar desse recurso (honestidade? O que é isso?). Enquanto isso segue essa pouca vergonha, depois falam que empresa pública dá prejuízo.

Esses são somente pontos que me intrigaram sobre o assunto. Nenhum dos dois protagonistas desse episódio teve um papel totalmente de vilão ou totalmente de bom, porém está mais do que claro que existem irregularidades. Acredito que se for possível apontar todos os coniventes/culpados sobre o assunto (inclusive, possivelmente, a governadora – que eu votei), devem sofrer todas as conseqüências legais possíveis. Mas em se tratando de políticos, eu não acredito mais em justiça.

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3 Respostas para “O diálogo

  1. Bom texto, bastante informação e detalhes sobre o assunto e expõe opiniões de modo concreto. A melhor parte foi a do “Ao contrário de Lula e Ciro Gomes, ele não pode afirmar que não sabia de nada” xD

  2. É… Quando lidamos com essas linhas tênues, quando não existe uma lei “específica” além da honestidade dizendo claramente não pode, os caras fazem e se usam do argumento que não tem nada de mais, não sei o que e o famoso “então prova” já citado.

    Mas sabe, gostei dessa história… Finalmente depois de tempos o povo andou se manifestando como povo e não como público… Que tri.

    Ah, então a Yeda venceu com dois votos: teu e da minha mãe. Mais ninguém votou! =P

  3. Querendo se fazer de santo? Vai ver se inspirou no Roberto Jefferson! Tá ficando manjado já…
    Tava procurando um post em que você tinha falado algo sobre a política no RS, mas não achei. Ao invés disse, achei esse
    https://zilio.wordpress.com/2007/09/13/representatividade/

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