Os Sonhadores

Sábado foi um dia atípico para mim. Um dia cinéfilo: assisti quatro filmes – na verdade, três e meio, pois no último caí no sono. “Com 007 só se vive duas vezes”, Diamantes de Sangue, Os Sonhadores e Ajuste Final. Devo dizer que o filme que mais me chocou, sensibilizou e me fez pensar foi Os Sonhadores, de Bernardo Bertolucci (até porque Diamantes de Sangue, candidato a Oscar, eu já tinha visto no cinema).

Uma pessoa comum despreparada – ou seja, que não soubesse da história de antemão – veria Os Sonhadores e acabaria tendo um impacto descomunal, provavelmente ficaria indignada o filme inteiro com os absurdos. Eu já sabia da história, estava pronto para qualquer absurdo. Mas devo dizer que, mesmo preparado, eu estive nas mãos do filme o tempo inteiro, querendo saber mais daquele universo psicodélico em que viviam. Por psicodélico, não quero que pensem em hippies, paz, amor e flores. O psicodélico a que me remeto trás consigo o nonsense, o “what the fuck?!”, o idealismo, a alienação, o medo, o excêntrico.
O pano de fundo é a cena parisiense do famoso “Maio de 68”. Por Paris, já sentimos uma certa aura de sedução no ar. Ainda mais quando entramos nas cinematecas, cineclubes, naquela elite intelectual que venera o cinema e torna-o parte de sua vida. Aí, através do protagonista Matthew, acabamos conhecendo o casal de irmãos que é responsável por tudo o que acontece durante o filme: Theo e Isabelle.

Cena a cena nos defrontamos com a convivência ímpar no universo próprio que os irmãos criaram através de suas vidas. Bertolucci tenta nos chocar com essas situações que vão desde beijar-se na boca (que na verdade, não é um fato que possa ser considerado tão bizarro entre irmãos), até jogar jogos onde devem pagar prendas um tanto diferentes. E é a partir da intromissão de Matthew, um observador externo, no mundo dos irmãos é que temos o nosso choque ético-cultural. Nós (pelo menos eu), espectadores, estamos muito mais perto de Matthew do que de Theo e Isabelle.

Os Sonhadores, de fato, é sensualizado em boa parte da trama, pois os jogos a que me refiro envolvem brincar com suas sexualidades. Porém, há uma situação que ficou marcada em minha memória. Ao discutir com Matthew sobre política, Theo revela seus idealismos ao falar do comunismo com paixão. No entanto, em plena “maio de 68”, onde protestos acontecem todo dia, Theo e Isabelle criados em sua classe média confortável nem percebem tudo o que se passa e a importância do que estão vivendo. Nessa cena que me marcou, Matthew abre os olhos de Theo para a ação. De que adianta ficar discutindo cinema, rock’n’roll e política em casa, de que adianta ficar sonhando (daí vem o nome do filme, acredito) em suas teorias, sonhando em seu mundo paralelo e esquecer-se do mundo real? Obviamente, de nada adianta.

Outra coisa interessante que gostaria de ressaltar é a atuação da Eva Green no papel de Isabelle. Vinda do teatro, em seu primeiro papel no cinema, Eva tem, acredito, seu maior desafio na carreira ao interpretar a personagem que considero central na trama, com cenas um tanto inusitadas e marcantes onde a nudez explícita impera em boa parte do filme.

Os Sonhadores (The Dreamers, 2003) deixou-me faminto. A cada cena, eu ficava mais ansioso por saber mais e realmente fiquei triste quando, ao acabar o filme, ter de sair do apartamento onde viviam os três.

3 Respostas para “Os Sonhadores

  1. Eu vi esse filme no ano passado. Muito, muito, muito bom. Fora a putaria haha, a estética e os atores, me envolveram de um jeito que outros filmes não conseguem.

  2. Depois de ler esse “post” até fiquei pensando o que seria a real mensagem que o filme estava proposto a fazer pois temos uma mistura explícita de intelectualidade com taras sexuais. O que seria o chamamento o filme ? Na minha opinião, as taras sexuais. Dá mais retorno financeiro, chama mais público e tals…. Deixo a pergunta no ar: se o filme tratasse apenas dos “games” sobre filmes e não houvessem prendas…. o retorno de mídia, público, etc… seria o mesmo ?

  3. Interessante a clocação de otavio. De fato, se o filme não tivesse consigo todo aquele conteúdo sexual explicito – diga-se de passagem -, o peso do filme frente o público espectador seria, com certeza menor, creio eu. O interessante a se observar também é que grande parte desse público dito “cult”, que aprecia os filmes contestadores e independentes em detrimento de qualquer outro que não se assemelhe a essa fórmula, tem o hábito de aumentar a nota e o valor de um filme por simplesmente conter nudez, sexo e/ou violência explícita. Em outras palavras e mais ou menos assim que muitos pensam: se tem sexo e violência explícitos e um pouco de filosofia no meio da ‘festa’ é que o negócio é “bão” mesmo! Eita nois!
    Parabéns pelo blog! Abraços!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s